- E quais foram as suas últimas palavras? – perguntaram-me novamente e eu, suspirei fechando meus olhos com força.
- Você é minha rainha.
Rainha
Foi tarde da noite quando eu descobri que havia sido abandonada. Eu sempre odiei bilhetes por achar eles curtos e frios. Sempre gostei do calor, do verão, do rock nacional. Imagine você, ir se preparar para dormir, decidir ferver um leite para esquentar o corpo e de repente, se deparar com um bilhete na porta da geladeira com um simples recado: “Me mandei! Fica bem tá. E não se esquece dos remédios. Paulo”.
Quando a notícia é ruim, inicialmente ninguém acredita. Foi o que aconteceu comigo, Laura, 23 anos, publicitária. Eu ainda ri do bilhete, amassei-o e joguei-o no lixo do banheiro, junto com um monte de frasco de remédios vazios. Esquentei meu leite, coloquei um pouquinho de canela e tomei realmente satisfeita com a minha vida. Mas, quando fui dormir e colocar meu pijama de verão, eu me deparei com um armário 50% vazio. As roupas, os sapatos, os documentos do Paulo haviam sumido. Procurei por sua essência por toda a casa, e só a achei no lixo do banheiro, junto com meus frascos de remédios vazios. Seu bilhete frio, que me dizia para ficar bem e tomar meus remédios.
Pensei que leite com canela nenhum poderia me consolar. Chorei, mas como chorei naquela noite. E no dia seguinte. Senti-me sem o chão. Flutuando em meio ao desespero e a dor. Foi interessante, mas pensei que ficar naquele ambiente triste e vazio não adiantaria nada. Eu tinha que tomar uma atitude. Ficar naquele padecimento emocional, naquele tormento só me fazia mal. Eu precisava de respostas, eu precisava de uma explicação. E eu não iria sofrer sem uma explicação.
Fui atrás. Eu o procurei por toda essa minúscula cidade do cú do mundo e nada. Eu o procurei na casa de seus pais, seus amigos, outros familiares... Até na casa dos familiares odiados eu procurei e nada dele, nenhum sinal. Só faltei gritar aos quatro ventos por ele. E de repente eu fiquei com medo. Eu realmente o havia perdido, mas percebi que não era só isso: Ele havia desaparecido.
Eu nunca havia sentido tanto medo quando percebi que ele havia desaparecido. Eu fui até a polícia e eles falaram que iam buscar por ele e buscaram. Acharam. Ele havia sido seqüestrado. Eu não consegui imaginar ele amarrado, sendo torturado ou sangrando. Doía demais em mim. Então eu o imaginei, todo formoso como era. Com seus cabelos negros, sua pele branca como cera, seu sorriso de dentes perfeitos... Seus olhos... Tão lindos. Castanhos. E isso fez com que eu melhorasse e tivesse coragem de ir velo em seu estado mais deplorável, físico e emocionalmente.
Ele me olhou com seus lindos e profundos olhos castanhos e disse que era para que eu o desculpasse. Disse que nunca mais me abandonaria, nem em um seqüestro como aquele e eu ri fraco, pensando que não existiria como. Eu o beijei delicadamente e pude ver seu último sorriso de satisfação. Vi em seus olhos que ele estava feliz como nunca. Deixou suas últimas lágrimas caírem e disse que nossa família seria linda. Eu respondi que só seria linda se nossos filhos pudessem ter os olhos dele. Ele ainda me perguntou se eu havia tomado meus remédios e eu ri de verdade dessa vez, e perguntei como ele ainda se preocupava comigo. Ele respondeu:
- Você é minha rainha.
Júlia Miranda

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